Antes de governar os outros, precisamos aprender a governar a si mesmo
Por Gaspar Carreira Jr., Sócio e Diretor Geral no CELINT
Durante boa parte da minha carreira executiva, fui formado, e reconhecido, pela capacidade de entregar: metas, resultado, performance, decisão, controle. Sempre foi preciso conhecer o negócio, dominar os números, liderar pessoas, tomar decisões e responder pelos resultados.
Quando passei a ocupar cadeiras em Conselhos, especialmente em companhias abertas, encontrei uma governança ainda muito marcada por outra lógica: comando e controle, fiscalização, conformidade e prestação de contas. Tudo isso continua sendo necessário, mas, ao longo do tempo, comecei a perceber que necessário não significa suficiente.
Minha própria trajetória foi exigindo um movimento que continua até hoje: desconstruir, conhecer e construir. Desconstruir algumas certezas que funcionaram muito bem em determinados momentos da carreira.
Conhecer melhor meus próprios modelos mentais, vieses, limites, fortalezas e a forma como minha experiência condiciona a maneira pela qual interpreto problemas e pessoas. E claro, construir novas formas de exercer liderança, influência e Governança.
Talvez essa tenha sido uma das transições mais importantes para mim: compreender que ocupar uma cadeira de Conselho não significa simplesmente levar para ela um executivo mais experiente.
É preciso aprender a ocupar outra cadeira. Uma cadeira na qual nem sempre temos a resposta, onde fazer a pergunta certa pode valer mais do que oferecer rapidamente uma solução. Onde escutar não significa esperar a nossa vez de falar, e influenciar é muito diferente de comandar. Foi também assim que minha compreensão sobre governança começou a mudar.
Passei a enxergá-la menos como um sistema predominantemente voltado ao controle e à prestação de contas e cada vez mais como um sistema humano de construção coletiva, capaz de provocar reflexão, ampliar perspectivas, qualificar decisões e transformar organizações.
É o que temos chamado, no CELINT de Governança Construtivista.
Uma Governança que não abandona controle, integridade, risco ou accountability. Ao contrário: parte deles, mas não termina neles. Porque seu propósito maior precisa estar na longevidade sustentável da organização.
Essa transformação aconteceu em paralelo a outra.
Ao empreender no CELINT, ensinar, compartilhar experiências, formar Conselheiros, mentorar Executivos, atuar como Conselheiro e Advisor, fui percebendo que aquilo que inicialmente parecia uma atividade profissional diferente era, na verdade, parte da mesma jornada.
Hoje me reconheço cada vez mais como um agente de transformação de pessoas e empresas por meio da Governança.
E isso trouxe uma nova inquietação. Falamos muito sobre composição de Conselhos, competências, diversidade, estratégia, riscos, sucessão, regimentos e processos decisórios.
Mas talvez ainda falemos pouco sobre as pessoas que ocupam essas cadeiras. Porque ninguém chega a uma reunião de Conselho apenas com conhecimento e experiência.
Levamos conosco nossos modelos mentais, crenças, vieses, vaidades, medos, certezas, relações com o poder e formas particulares de enxergar o mundo.
E colocamos tudo isso para interagir com o repertório, e com as subjetividades, das demais pessoas ao redor da mesa, afinal estamos em colegiado. É aí que autoconhecimento e teaming deixam de ser apenas temas de desenvolvimento pessoal e passam a ser temas de governança.
Não basta reunir excelentes indivíduos para produzir um excelente Conselho, é preciso transformar inteligência individual em inteligência coletiva. Isso exige consciência sobre si mesmo e curiosidade genuína sobre o outro. Exige saber discordar, rever posições, construir sobre ideias diferentes e reconhecer que a melhor resposta talvez não seja aquela que levamos para a reunião.
Por isso, quanto mais reflito sobre a evolução da governança, mais uma pergunta me provoca:
Um Conselho consegue alcançar um nível de maturidade maior do que o nível de consciência das pessoas que o compõem?
Talvez a transformação da Governança que buscamos nas organizações comece antes, inicie pela transformação daqueles que governam. Depois de tantos anos de carreira, continuo nesse processo: Desconstruindo. Conhecendo. Construindo.
Talvez seja exatamente isso que nos permita continuar transformando....
Para aprofundar este tema de Autoconhecimento e Transformação Pessoal dentro e fora dos Conselhos, o CELINT oferece o Programa ATP. Saiba mais sobre o assunto:







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